Agora que entramos gradualmente na Primavera, vamos começar a ouvir com alguma frequência este tema das Gotas frias, Cut-Off ou DINAS (Depressão Isolada nos níveis altos em Português) e DANAS (Depresión Aislada en niveles altos em Espanha), as principais responsáveis por nos trazerem as típicas trovoadas da época e tempo geralmente muito instável.
Mas afinal que fenómeno é este e como se forma ?!
Antes de mais, temos de compreender primeiro a circulação atmosférica nas nossas latitudes e podemos começar pela posição geográfica da Península Ibérica, que se situa bem acima do Trópico de Câncer, mais concretamente na região temperada do Atlântico Norte, a uma latitude estimada entre 36°N e 43°N e longitude entre 9°O e 3°E.
A Península Ibérica encontra-se, portanto, na faixa de transição entre as massas de ar tropicais e polares, numa zona claramente dominada pela circulação geral de Oeste (ventos predominantes de Oeste para Leste). Nesta região, a atmosfera é fortemente influenciada pela corrente de jato polar (jet stream) um corredor de ventos muito intensos nos níveis altos da troposfera situados a cerca de 9–12 km de altitude.
A corrente de jato funciona como uma “autoestrada atmosférica”, guiando as depressões e sistemas frontais do Atlântico Norte em direção à Europa. No entanto, o seu trajeto não é retilíneo. O jet stream ondula, formando cristas (zonas de altas pressões) e cavados (zonas de baixas pressões). É precisamente nestas ondulações que pode nascer uma Gota fria, DINA ou Cut-Off.

Uma Cut-Off Low ou Gota Fria é uma depressão isolada em altitude que se separa da circulação principal do jet stream. O termo inglês significa literalmente “cortada” ou “isolada”, descrevendo o processo dinâmico que lhe dá origem.
Quando um cavado se aprofunda excessivamente em latitude, pode ocorrer um estrangulamento da circulação, levando ao seu “desprendimento” da corrente principal. Forma-se então um núcleo fechado de ar frio em altitude, desligado do fluxo zonal dominante. Essa estrutura passa a evoluir de forma quase autónoma, frequentemente com deslocamento lento ou errático.



Mas qual a razão de lhe darem o nome de “Gota Fria” ?
O elemento central de uma Cut-Off ou Gota Fria é a presença de ar significativamente mais frio nos níveis médios e altos da troposfera.
A expressão “Gota Fria” tem origem na representação cartográfica do fenómeno. Nas cartas meteorológicas de altitude, a depressão isolada apresenta-se como um núcleo fechado de ar significativamente mais frio do que o ambiente envolvente, assumindo uma forma semelhante a uma gota destacada da circulação principal. Importa, contudo, sublinhar que este “frio” ocorre em altitude e não necessariamente à superfície, sendo precisamente o contraste entre ar frio nos níveis médios e ar quente e húmido junto ao solo que potencia a instabilidade associada ao fenómeno.
Quando esse ar frio se posiciona sobre uma superfície relativamente quente, como o Oceano Atlântico ou, sobretudo, o Mediterrâneo no final do verão e início do outono aumenta o gradiente térmico vertical (diferença de temperatura entre a superfície e a altitude). Este contraste de massas de ar favorece maior instabilidade atmosférica e a intensificação dos movimentos de ar ascendentes que acabam por originar o desenvolvimento de nuvens de desenvolvimento vertical (Cumulonimbus).
O ar quente e húmido à superfície sobe rapidamente, arrefece em altitude e condensa, libertando calor latente. Essa libertação de energia reforça ainda mais a convecção, podendo originar precipitação muito intensa em curtos períodos de tempo, trovoada e por vezes granizo ou saraiva.

Então as famosas grandes trovoadas de Primavera e Outono, que por vezes originam grandes perdas na Agricultura e outros estragos estão associadas a este tipo de Depressões ?
De facto sim, muitas das trovoadas mais intensas especialmente aquelas que provocam granizo, chuva forte em pouco tempo e prejuízos na agricultura estão frequentemente associadas à presença deste tipo de sistemas, principalmente porque estas tendem a deslocar-se lentamente, podendo a instabilidade persistir durante várias horas ou dias sobre as mesmas regiões, aumentando o risco de cheias rápidas, ventos convectivos muito fortes e queda de granizo que podem por vezes assumir dimensões assinaláveis.
Alguns exemplos de episódios trágicos na Península Ibérica associados a este fenómeno, foram as cheias na região de Lisboa em Novembro de 1967, no Algarve em Novembro de 2015 e na Comunidade Valenciana, Múrcia e Andalúzia em Espanha em 2024.



